sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Os forasteiros

Leonardo, 32, e Tanira, 28, se formaram em medicina na Argentina, sofreram preconceito e, de volta ao Brasil, foram selecionados para o Mais Médicos

Ele saiu de Pirituba (zona norte da cidade de São Paulo) e ela de Santa Rosa (RS) para realizar um sonho em comum: estudar medicina.

De famílias simples, Leonardo Fabrício Diniz Abreu, 32, e Tanira Remus Zamim, 28, não conseguiriam arcar com as despesas de uma faculdade particular no Brasil.

Por isso, foram para a Argentina para poder estudar. Lá, se conheceram, se formaram e tiveram uma filha.

De volta ao Brasil neste ano, ambos estão entre os 1.618 médicos selecionados na primeira rodada do programa Mais Médicos, do governo federal.

Nos últimos anos, o que mais incomodou o casal foi se sentir forasteiro.

Foram oito anos longe da família e dos amigos, vivendo em uma terra desconhecida e com um idioma nem sempre compreensível.

Tanira afirma que sofreu muito preconceito por ser uma "forasteira". Conta ter visto muitos colegas brasileiros desistirem no meio do curso pela saudade de casa e pela incerteza em relação a poder um dia retornar e exercer a medicina no Brasil.

Apesar das dificuldades, Leonardo diz que valeu a pena, pois conseguiu sobreviver com R$ 1.800 por mês enviados pelos pais para custear todas as despesas, como faculdade, moradia, transporte e comida.

"No Brasil, a mensalidade de qualquer faculdade de medicina não sai por menos de R$ 5.000. Não teria condições", afirma.

Ele diz não ver diferença de qualidade entre uma universidade particular argentina e uma brasileira.

Leonardo e Tanira estudaram na mesma sala no Instituto Universitário Héctor Barceló, em Buenos Aires. Foram seis anos de curso e mais um de internato para então conseguir o sonhado diploma.

Após a graduação, o casal ficou mais um ano na Argentina para trabalhar e fazer um pé-de-meia. "Trabalhamos no interior da Argentina, com todas as dificuldades de equipamentos e exames que também vemos nas áreas mais carentes do Brasil", diz ele.

Assim que retornou ao Brasil, em abril deste ano, o casal voltou a se sentir "forasteiro", com os diplomas nas mãos e sem poder trabalhar.

Eles contam que fizeram a inscrição nas provas das universidades federais que fazem a revalidação do diploma --já fizeram uma delas.

"O problema é que, se não passarmos, só poderemos prestar no ano que vem. É mais um ano parado, sem trabalhar", diz Leonardo.

Com o fim das economias, Leonardo e Tanira agora contam com a ajuda dos pais para sobreviver.

Para eles, o programa Mais Médicos foi uma forma de ingressar rapidamente no mercado de trabalho e ainda ter uma bolsa de R$ 10 mil.

Balanço divulgado pelo Ministério da Saúde nesta semana aponta que, dos 1.618 médicos selecionados na primeira rodada do programa, 164 são como Leonardo e Tanira, brasileiros que se graduaram em outros países.

Esses 164 brasileiros estão contabilizados entre os 522 profissionais que atuam no exterior --os demais 358 são estrangeiros.

Assim como os demais candidatos, Leonardo e Tanira assinalaram seis opções de locais onde tinham interesse em trabalhar.

A primeira era São Paulo, para "não precisar mudar de casa nem modificar a rotina".

Os dois se consideram sortudos, pois foram contemplados com a primeira opção, mas ainda não sabem exatamente em qual bairro serão alocados.

"Ganhamos a oportunidade de o nosso país abrir novamente a porta para nós", afirma Tanira. Por GIOVANNA BALOGHDE SÃO PAULO.

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